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Publicado por Emmanuel Ramos de Castro

A insensatez veste branco

Foto: Folhapress.


É sempre imprevisível o desdobramento que pode ter na vida de uma pessoa até então desconhecida o fato de ter sido fotografada, por acaso, no lugar errado e na hora errada. Ou no lugar certo e na hora certa. A História está coalhada desse tipo de instantâneo que transforma o protagonista em símbolo de algo maior do que ele.

Nesta linha, vale esmiuçar uma foto estampada na primeira página da ?Folha de S.Paulo? desta terça-feira (27). Ela mostrava, em primeiríssimo plano, um homem de estatura forte e fisionomia tensa. Sua linguagem corporal era defensiva. Mantinha o olhar fixo em algum ponto morto, talvez para evitar contato visual com a hostilidade à sua volta. Sua alegre camisa xadrez amarela parecia destoar do ambiente carregado.

Era negro, cubano e médico.

No flagrante captado pelo fotógrafo, ele recebia apupos de duas mulheres que estreitavam sua passagem. Brancas, ainda jovens e de fino trato, destacavam-se pelos jalecos. Faziam parte de um grupo de médicos cearenses. Com as mãos em torno da boca para ampliar o eco das ofensas, xingavam o cubano em coro com outros só parcialmente enquadrados. Eram o retrato da intolerância.

Como foi fartamente noticiado, o episódio ocorreu em Fortaleza, no fim do primeiro dia de treinamento dos 96 recém-desembarcados estrangeiros (79 dos quais cubanos) do programa Mais Médicos. No Ceará, onde 701 dos municípios foram preteridos por profissionais brasileiros, o Sindicato dos Médicos estadual decidira protestar contra a contratação de cubanos e cercara a Escola de Saúde Pública da cidade, onde se realizava o curso. Houve tumulto, empurra-empurra, ovo voando.

Ao fim da aula inaugural, os cubanos, assustados, se viram cercados e obrigados a passar por um corredor humano de colegas de profissão brasileiros que os vaiavam e chamavam de ?escravos?, ?incompetentes?. Palavras de ordem como ?Voltem para a senzala? foram entoadas contra os estranhos ao ninho.

Por mera associação visual de imagem, o flagrante de Fortaleza trouxe à mente uma foto ? essa sim, icônica ? captada em Little Rock, no estado do Arkansas, 56 anos atrás. Ela transformou o rosto de uma adolescente de 15 anos na imagem do ódio racial nos Estados Unidos e fez da fisionomia da outra adolescente retratada a face da tenacidade negra. À época, nenhuma das duas jovens americanas sequer notou o instante em que o fotógrafo do ?Arkansas Democrat? virou suas vidas pelo avesso.



Qualquer semelhança não é mera coincidência

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Foi no dia 4 de setembro de 1957, seis anos antes de o pastor Martin Luther King levar para Washington seu célebre discurso-sonho de uma América menos desigual. Elizabeth Eckford era uma adolescente reservada. Estava entre os nove alunos negros de Little Rock selecionados para cumprir a ordem judicial de integração racial na cidade. Mas se perdeu do seu grupo e precisou marchar sozinha em direção ao portão principal da melhor escola local, até então reservada a alunos brancos.

À sua frente, teve a passagem barrada por soldados armados da Guarda Nacional. Às suas costas, uma pequena multidão começou a lhe lançar xingamentos. ??Vamos linchá-la?, ?Dá o fora, macaca?. Uma senhorinha branca a quem pediu ajuda lhe cuspiu no rosto.

Ao tentar sair dali sem correr, como lhe ensinara a mãe, teve um séquito de jovens no seu encalço, além de três adolescentes coladas no calcanhar.

Quando o flash do fotógrafo disparou, uma das três entoava o bordão ?Vai pra casa, nigger. Volta para a Africa?. Era Hazel Bryan, de 15 anos, esbelta, coquete e popular aluna do colégio segregado. A foto captou-a de olhos e sobrancelhas franzidos e de boca aberta contorcida pela raiva. E, em primeiro plano, via-se a estudante negra Elizabeth, de vestido de algodão branco, apertando um fichário e um livro contra o peito. Prosseguia sua caminhada de cabeça erguida, com o medo escondido atrás de óculos escuros.

Por mero acaso e apesar da pouca idade, ambas foram assim catapultadas para a História ? Hazel como o retrato do ódio racial, Elizabeth, o da determinação ? e tiveram o resto de suas vidas marcado por aquele instantâneo.

O flagrante do episódio cearense difere em quase tudo do caso que entrou para a história dos direitos civis americanos como ?Os Nove de Little Rock? ? na natureza, no significado, na dimensão, na consequência. Aproximam-se apenas por humanizarem de forma indelével, para o bem ou para o mal, um noticiário até então sem rosto.

No caso de Little Rock, as duas protagonistas eram meninas que repetiram em público o que aprenderam em casa. No caso de Fortaleza, são todos adultos ? o cubano negro, assustado, mais tarde identificado como Juan Delgado, de 49 anos, que já trabalhou quatro anos no Haiti ? e as duas médicas brasileiras retratadas aos apupos. Olhando pelo retrovisor, talvez preferissem ter ficado fora da foto. Ou do foco.

Em tempo: segundo dados do Censo de 2010, somente 1,5% dos médicos brasileiros se autodenomina negro e 13,4% se autoclassificam como pardos. Já no cômputo geral dos agora mais de 200 milhões de cidadãos brasileiros, contudo, 50,7% se autodeclaram pretos ou pardos.
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Por: Dorrit Harazim

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8 comentários
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Revoltado

Bom dia

Depois dizem não entender meu nick.

Mas vejamos:

O governo desta corja petista (me desculpe blogueiro), paga ao senhor Castro R$ 10.000,00 mensais pelo serviços dos médicos cubanos, que viverão vigiados pelos seus asseclas petistas aqui no Brasil, longe da família que sera vigiada pela ditadura dos irmãos Castros em Cuba, para que não fujam.
Em sua benevolência, o regime ditatorial cubano paga R$ 4.000,00 a estes profissionais, embolsa R$ 6.000,00 que dividirá sabe-se la com quem.

E este profissionais preparados, estudados, livres em uma pátria que não tem ditadura, nem justiça, ainda ofendem estas pobres criaturas, que para poder comer e respirar um pouco de liberdade se sujeita a ir aos rincões onde estes profissionais brasileiros tem verdadeiro nojo.

Cada vez mais decepcionado com este povo brasileiro.

E viva la revolucion. Quero ver no sete de setembro se estas pessoas se juntarão aos diversos grupos de protestos que se espalharão pelo pais, reclamando do governo que é o principal responsável por este crime. E não de pobres criaturas que que vivem sobre a tutela de dois velhos gaga.

Alias, descobri porque os senhores Castros mandaram os médicos pra cá. La como cá, também não se aceitam idosos nos planos de saúde. Se aqui no Brasil é após os 58 anos la é após os 70, que estas pragas não morrem nunca. Estão preparando para serem atendidos de graça aqui no Brasil, pois chefes de estados tem prioridade sobre a população que paga seus impostos. E não querem gastar seus preciosos recursos, que acreditam levarão para o I...... igual ao senhor Hugo Chaves.

Abraços

Hoje ta Pank!!!!!!

Dr. Kissy Dany

Boa tarde Caro Soldado.

Você tem razão, existem outras nacionalidades....serão somente sei mil médicos de Cuba.

Respeito muito sua opinião, como você demonstra ser um bom soldado, segue um link da antiga Forças Armadas, atual Forças de Defesa.

http://www.forte.jor.br/2013/05/07/conexao-brasilhavana-seis-mil-medicos-cubanos-virao-trabalhar-no-brasil/

Abs.

Soldado

Aprecio muito os comentários do dr. Kiss Dane mais eu discordo nesse ponto. E nem sou adepto de algum partido como o blogueiro que todo mundo sabe que é vermelho da cor do pano dos toreiros espanhois. Mas eu dicordo da sua opinião porque os médicos que tão chegando aqui não são somente cubanos. Tem espanhol, português... mais a imprensa e a oposição tão focando nos cubanos que é pra enrolar a população. Descupe dr. Kiss mais cada cabeça uma sentesa, né?

Dr. Kissy Dany

Boa tarde.

Não acredito que o programa tem a finalidade que o povo almeja.

Fico extremamente preocupado, pois o programa tem outros interesses que estão muitos distantes de resolver a crise da Saúde Pública, porém o governo está tocando no "calcanhar de Aquiles" da massa brasileira, e a massa está caminhado como boi marcado (música - Admirável Gado Novo de Zé Ramalho).

O problema nas regiões distantes no Brasil é estrutural, nunca foi e, nunca será de capital humano, pois capital humano não falta. Conheço muitos médicos com disposição para atender em áreas distantes e carentes, porém estão de mãos atadas diante da fragilidade estrutural.

Seria como enviar corretores de seguros em áreas não cobertas pelas seguradoras, sem nenhuma ferramenta de mensuração para base de calculo.

Seria o mesmo que vender um serviço e não entregar, e pior, fazer isso todos os dias; voltar para casa com a péssima sensação de inoperância, não por capacidade, mas pela falta de estrutura adequada.

Vamos acordar!!! O programa tem um forte apelo eleitoreiro, visa formar cabos eleitorais, e porque não dizer agentes do socialismo, infiltrados em áreas de fácil manipulação social.

E por falar do lendável Aquiles vamos refletir na Epopéia Romana Eneida de Virgilio ..."O Cavalo de Tróia".

Não sou a favor das vaias, precisamos respeitar todos os estrangeiros, porém devemos ampliar nossa "comovisão".

Vejam as matérias abaixo:

www.youtube.com/watch?v=I7BEFWeNb-I

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/09/1335414-o-fascismo-do-pt-contra-os-medicos.shtml


Abraços.

Anônimo

É muito difícil.

Lista de Schindler

Imagina se todo brasileiro que migrou para a Europa na época do sufoco nacional, especialmente dentistas para Portugal, fosse tratado assim ?

Ah , ia ser matéria de Globo Repórter e Fantástico !

No Ceará É Assim

Eu só queria
Que você fosse um dia
Ver as praias bonitas do meu Ceará

Tenho certeza
Que você gostaria
Dos mares bravios
Das praias de lá

Onde o coqueiro
Tem palma bem verde
Balançando ao vento
Pertinho do céu
E lá nasceu a virgem do poema
A linda Iracema dos lábios de mel

Oh! Quanta saudade
Que eu tenho de lá
Oh! Quanta saudade

A jangadinha vai no mar deslizando
O pescador o peixe vai pescando
O verde mar ...
Que não tem fim
No Ceará é assim

Anônimo

Caro Administrador,

Belíssima Matéria !

Infelizmente essa é a "nossa" elite, e os médicos cubanos estão indo onde os filhinhos de papai nunca quiseram ir.

Quando ao Juan Delgado, nos perdoe, também estamos com problemas na educação, que esperamos resolver em breve.

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