Por Blog do Corretor | Reportagem baseada em fatos apurados e publicados originalmente por Natália Portinari do UOL
SÃO PAULO – A operação deflagrada ontem que mirou o Banco Master com medidas de busca e apreensão é sustentada por uma suspeita de fraude para desvio de recursos que, segundo a investigação, pode chegar a R$ 5,7 bilhões. No centro do caso estão transações financeiras que envolvem uma clínica médica e um hospital infantil, ambos localizados em Contagem (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte.
De acordo com decisão judicial obtida pelo UOL, em inquérito conduzido no ano passado, o MPF (Ministério Público Federal) em São Paulo apontou que o Banco Master teria direcionado uma parcela relevante do dinheiro captado por CDBs (Certificados de Depósito Bancário) para fundos de investimento nos quais o próprio banco figurava como cotista único. A suspeita é que esses fundos, por sua vez, eram usados para comprar títulos emitidos por empresas que mantinham vínculos societários ou relações pessoais com sócios do banco.
Um dos elementos citados pelos investigadores é uma movimentação de R$ 9 milhões: segundo o MPF, o valor teria saído do circuito sob suspeita e sido repassado por um intermediário a Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, o que, na avaliação da investigação, reforça os indícios de desvio de dinheiro.
Clínica e hospital sob suspeita
No detalhamento do caso, a investigação menciona a Clínica Mais Médicos, que teria emitido R$ 361 milhões em notas comerciais — segundo o MPF, sem garantias. Ainda conforme os autos, a clínica teria capital social zero e uma dívida descrita como desproporcional: 6.500 vezes maior do que sua receita anual bruta, que em 2023 foi de R$ 54 mil. Para o MPF, os números indicariam uma alavancagem incompatível com qualquer parâmetro razoável de viabilidade econômica.
A presidente e sócia da empresa, Valdenice Pantaleão, foi alvo de busca e apreensão na operação. Segundo o MPF, apesar de presidir uma sociedade que captou milhões, ela não teria patrimônio e teria sido beneficiária de auxílio emergencial em 2020 e 2021 — o que, para os investigadores, é um indicativo de que atuaria como interposta pessoa (“laranja”).
Outro ponto citado no material é que Valdenice teria outorgado procuração a Fernando Alves Vieira, apontado como alguém com parentesco com sócios do Banco Master. Ainda conforme a investigação, a Clínica Mais Médicos estaria ligada ao Hospital da Criança de São José, que também teria emitido R$ 372 milhões em notas adquiridas pelo banco.
“Mesmo padrão de emissão” e valor total sob bloqueio
A apuração sustenta ainda que outras empresas vinculadas a sócios do banco — como Holding AF S.A. e Simetria Planos de Saúde Eireli — teriam repetido o que foi descrito como “mesmo padrão de emissão” de notas comerciais compradas pelos fundos do Banco Master.
A investigação aponta que, de mais de R$ 3,5 bilhões investidos pelo banco em fundos em que era cotista único, cerca de R$ 1,8 bilhão teria sido direcionado para aquisição de notas emitidas por empresas vinculadas aos próprios sócios. Considerando operações correlatas, o MPF chegou ao montante total de R$ 5,7 bilhões, sobre o qual foram solicitados bloqueios.
Gestoras, suspeitas de lavagem e menção a “falsos empréstimos”
Segundo a apuração, também foram detectados indícios de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, atribuídos a responsáveis pelas administradoras de fundos Reag, Ruby Capital e Trustee DTVM.
Com base em relatório do Banco Central e relato no âmbito da investigação pela PGR (Procuradoria-Geral da República), o caso menciona João Mansur, ex-dono da Reag, como alguém que teria usado a gestora para desvio de valores do Banco Master. A investigação também indica que filhos de Mansur teriam sido utilizados como laranjas.
Ainda de acordo com os elementos reunidos, o suposto desvio articulado pela Reag passaria por uma empresa chamada Brain Realty, que, conforme reportagem citada pela Folha de S.Paulo, teria recebido cerca de R$ 460 milhões em falsos empréstimos do Banco Master. O dinheiro, então, teria sido repassado a fundos que aplicaram recursos em papéis descritos como de baixa liquidez e valor fictício, incluindo cártulas do Besc, banco de Santa Catarina extinto em 2008.
Em manifestação citada no material, a PGR descreve fluxos ocorridos entre abril e maio de 2024 que teriam resultado em um desembolso de R$ 1,45 bilhão pelo Banco Master, com retorno de R$ 1,38 bilhão via aquisição de CDBs por fundos mencionados na investigação.
O que dizem os citados
Após a operação, a defesa de Vorcaro afirmou que o banqueiro tem colaborado com as autoridades e está à disposição para prestar esclarecimentos. A defesa do empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, disse que ele está à disposição para cooperar e que suas atividades são lícitas, sem relação com a gestão do Banco Master.
Em nota, a defesa de Nelson Tanure declarou que ele não tem relação societária com o Banco Master e que confia que a investigação demonstrará a inexistência de prática ilícita. Já o advogado de João Carlos Mansur afirmou não ter tido acesso à investigação, mas disse estar à disposição das autoridades para os esclarecimentos devidos.






