Por Iolanda Marques | Artigo
Durante muito tempo, o Programa de Benefícios Corporativos foi tratado como uma lista de obrigações: plano de saúde, vale-alimentação, seguro de vida e pronto. Algo a ser renovado automaticamente, ano após ano, apenas para cumprir convenções coletivas e evitar ruídos trabalhistas.
Esse modelo ficou para trás. Hoje, os benefícios ocupam um papel estratégico dentro das organizações. Eles impactam diretamente a atração e retenção de talentos, o controle de custos, o clima organizacional, a produtividade e até a mitigação de riscos assistenciais e trabalhistas. Ainda assim, muitas empresas continuam administrando seus benefícios por inércia, sem questionar se o desenho atual faz sentido para o perfil dos colaboradores, para o momento financeiro do negócio ou para a estratégia corporativa.
O primeiro sinal de alerta costuma aparecer no orçamento. Reajustes sucessivos acima da inflação médica, crescimento acelerado da sinistralidade, uso excessivo de pronto-socorro e internações evitáveis indicam que a conta não está fechando. Nesses casos, revisar benefícios não significa, necessariamente, reduzir coberturas, mas repensar modelos de contratação, coparticipações, redes assistenciais e programas de gestão de saúde, buscando eficiência sem perda de valor.
Outro ponto frequentemente ignorado é a mudança no perfil da população. Empresas crescem, amadurecem, se transformam e as pessoas também. O envelhecimento dos colaboradores, o aumento do número de dependentes, a entrada de novas gerações no mercado e a expansão acelerada do quadro alteram completamente a dinâmica de utilização dos benefícios. Manter uma carteira desenhada para uma realidade passada gera desperdício de recursos e baixa percepção de valor. Benefício que não é percebido deixa de cumprir seu papel estratégico.
Os impactos também aparecem na atração e retenção de talentos. Dificuldade para contratar profissionais qualificados, aumento do turnover voluntário e reclamações recorrentes em pesquisas de clima costumam indicar um desalinhamento entre os benefícios oferecidos, o mercado e a proposta de valor ao colaborador. Benefícios não precisam ser os mais caros, mas precisam ser relevantes, competitivos e bem comunicados.
Além disso, a carteira de benefícios deve refletir o momento estratégico da empresa. Organizações em fase de crescimento tendem a priorizar modelos previsíveis e escaláveis. Empresas mais maduras podem investir em gestão de saúde, bem-estar e benefícios de longo prazo. Revisar benefícios, nesse contexto, é alinhar pessoas, estratégia e sustentabilidade financeira.
Há ainda um fator menos visível, mas igualmente crítico: a governança. Sem indicadores claros, relatórios consistentes, SLAs bem definidos e processos estruturados, os benefícios se tornam uma verdadeira “caixa-preta” dentro da empresa. Isso dificulta decisões, compromete a previsibilidade de custos e expõe a organização a riscos financeiros e operacionais. A revisão da carteira é uma oportunidade para profissionalizar a gestão e tomar decisões baseadas em dados, não apenas em urgências.
Por fim, se a empresa nunca passou por um processo estruturado de revisão, apenas renova contratos ano após ano e não faz benchmarking de mercado, a resposta é simples: independentemente de haver um problema aparente, já faz sentido revisar. Muitas vezes, os maiores ganhos estão em ajustes discretos, que só se revelam quando há uma análise técnica aprofundada.
Revisar o Programa de Benefícios Corporativos não é sinal de crise, mas de maturidade. Empresas que tratam os benefícios de forma estratégica conseguem reduzir custos de maneira sustentável, aumentar a percepção de valor dos colaboradores, melhorar indicadores de saúde e bem-estar e fortalecer sua gestão de pessoas. No fim, a pergunta mais relevante não é se os benefícios devem ser revistos, mas quando foi a última vez que isso foi feito de forma realmente estratégica.
Iolanda Marques é Head de benefícios corporativos da Korsa Riscos & Seguros. Profissional com mais de 25 anos de experiência no mercado segurador, além de especialista em consultoria e gestão estratégica de benefícios








